O recorde mundial da meia maratona agora é 56:51

Kejelcha chegando em segundo na Maratona de Londres em abril, onde seus 1:59:41 foram a estreia mais rápida já corrida na maratona.
Yomif Kejelcha passou os 10km em 27:19, largou o pelotão inteiro no quilômetro sete e terminou a meia de Buenos Aires em 56:51. São 29 segundos a menos que o recorde de Jacob Kiplimo e a primeira vez que um homem baixa de 57 minutos numa prova que conta. O detalhe esquisito: ele acelerou depois que ficou sozinho.
Domingo de manhã em Buenos Aires, 31.500 pessoas na largada da Media Maratón Ciudad de Buenos Aires. Um deles fez 21,1 km a 2:42 por quilômetro.
Kejelcha tem 29 anos, é etíope e já tinha sido dono desse recorde antes. Marcou 57:30 em Valência em outubro de 2024, perdeu pro Kiplimo neste ano e acabou de tomar de volta por uma margem que faz a própria marca antiga dele parecer lenta.
E ele está no meio de um ano absurdo. Em abril correu 1:59:41 na estreia dele na maratona, em Londres, em segundo atrás de Sabastian Sawe e na estreia mais rápida que alguém já fez. Quatro meses depois é dono do recorde da meia também.
O que aconteceu em Buenos Aires
Ele não ficou esperando. Passou os 5km em 13:34 com o grupo da frente ainda colado, e no quilômetro sete foi embora, com mais de 14 quilômetros pela frente. Ninguém foi junto.
A parcial dele nos 10km foi 27:19. Vale reparar que isso era 19 segundos mais lento que a parcial do Kiplimo a caminho do 57:20 em Lisboa. Ou seja, com um terço de prova, Kejelcha estava atrás do ritmo de recorde e correndo sozinho.
Aí ele fez os últimos 11,1 quilômetros em mais ou menos 29:32, uns 2:40 por quilômetro. Mais rápido que a primeira metade. Sozinho, na rua vazia, sem ninguém pra perseguir e ninguém atrás. Essa é a parte difícil de processar.
Na prova feminina, a etíope Fotyen Tesfay venceu com 1:03:57, bem à frente de Nevin Can, com 1:05:06.
Os 56:51 ainda precisam passar pelo processo de homologação da World Athletics, que nesta prova não é formalidade nenhuma, como explica a próxima seção.
O que 56:51 significa de verdade
Tempo nesse nível fica meio abstrato, então vai em unidades que dizem alguma coisa. 56:51 numa meia maratona é mais ou menos 2:42 por quilômetro, ou 4:20 por milha, mantidos por 21,1 km.
Numa pista, são 65 segundos por volta. Cinquenta e três voltas assim, emendadas, sem pausa. Muita gente bem treinada consegue uma volta de 65 segundos num dia bom e termina completamente acabada. Ele fez isso cinquenta e três vezes e ainda acelerou.
O asterisco do sub-57 que ninguém cita
Quase toda manchete hoje está dizendo primeiro homem abaixo de 57 minutos. Isso pede uma linha de contexto, porque não é bem a mesma coisa que mais rápido da história.
Em fevereiro de 2025, em Barcelona, Jacob Kiplimo correu 56:42. Nove segundos mais rápido do que o Kejelcha acabou de fazer. A World Athletics não homologou a marca depois de entender que Kiplimo tinha pegado o vácuo de um carro que seguia à frente dele no percurso.
Então as duas coisas são verdade. A meia maratona mais rápida já corrida por alguém é 56:42, e o recorde mundial da meia maratona é 56:51. Kejelcha é o primeiro homem abaixo de 57 minutos em condições que valem pro recorde, o que é uma distinção real e bem mais estreita que a versão da manchete.
Como o recorde andou
Três marcas homologadas em menos de dois anos, e duas das três são do Kejelcha.
O 56:42 do Kiplimo não está aí de propósito. É mais rápido que qualquer linha da tabela e nunca entrou na cadeia do recorde.
O recorde feminino segue sendo da Gidey
Enquanto o recorde masculino trocou de mãos três vezes desde o fim de 2024, o feminino não saiu do lugar. Letesenbet Gidey correu 1:02:52 em Valência em outubro de 2021 e nenhuma mulher baixou de 63 minutos antes ou depois. Vai fazer cinco anos, o que nesta era do esporte é muito tempo pra qualquer marca ficar de pé.
Os outros 31.500
O número que fica na minha cabeça não é 56:51. É 31.500. Foi essa gente toda que correu a Media Maratón Ciudad de Buenos Aires no domingo. O recorde mundial do Kejelcha e a primeira meia de 2h40 de alguém aconteceram nas mesmas ruas, na mesma manhã, na mesma prova.
Corri minha primeira meia em maio. Longe disso tudo, e não vou tentar vender a distância como inspiradora quando ela é só gigante mesmo. Um 56:51 exige genética, altitude, uma década de trabalho e uma vida em que treinar é o emprego. Dá pra admirar isso pelo que é sem transformar em régua pra medir a corrida de terça à noite espremida depois do trabalho.
Acompanhe o recorde, é uma coisa absurda. Depois vá fazer os seus 40 minutos. As duas coisas são corrida.
Se Buenos Aires plantou uma linha de largada na sua cabeça, as dicas de provas no Brasil têm corridas com inscrição aberta agora, e um clube de corrida no-drop é o caminho de menor pressão se um número de peito ainda parece muita coisa.
56:51, do etíope Yomif Kejelcha, na Media Maratón Ciudad de Buenos Aires em 23 de agosto de 2026. Tirou 29 segundos dos 57:20 que Jacob Kiplimo correu em Lisboa em março, e ainda passa pelo processo normal de homologação da World Athletics antes de ser oficial.
Já. Jacob Kiplimo correu 56:42 em Barcelona em fevereiro de 2025, que segue sendo a meia maratona mais rápida já corrida. A World Athletics nunca homologou a marca, entendendo que ele se beneficiou do vácuo do carro que abria a prova. Ou seja, a meia mais rápida da história e o recorde mundial são dois tempos diferentes.
1:02:52, de Letesenbet Gidey, em Valência, em outubro de 2021. Ela segue sendo a única mulher a baixar de 63 minutos, e esse recorde já está de pé há quase cinco anos.
Cerca de 2:42 por quilômetro, ou 4:20 por milha. Numa pista, dá mais ou menos 65 segundos por volta, mantidos por umas 53 voltas seguidas, sem parar.
A maioria termina entre duas horas e duas e meia, e quem está na primeira meia costuma passar disso. O recorde da elite é outro esporte, não um placar em que você está. Se quiser uma linha de largada sua, as nossas dicas de provas listam corridas no Brasil com inscrição aberta.
